Médicos e instrumentador são indiciados por homicídio após paciente morrer com pinça esquecida no corpo em MG
23/06/2026
(Foto: Reprodução) Funcionários de hospital são indiciados após morte de paciente em João Pinheiro
A Polícia Civil de João Pinheiro, no Noroeste de Minas, concluiu o inquérito que apurava a morte de Manuel Cardoso de Brito, de 68 anos, após uma pinça cirúrgica ser esquecida dentro do abdômen dele durante uma cirurgia realizada no Hospital Municipal Antônio Carneiro Valadares. Três profissionais de saúde foram indiciados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.
O paciente morreu na véspera de Natal de 2025 após passar por dois procedimentos cirúrgicos na unidade. Durante a internação, uma tomografia revelou que o instrumento havia sido esquecido no abdômen do paciente durante o primeiro procedimento. O caso passou a ser investigado pela Polícia Civil e também foi alvo de uma CPI na Câmara Municipal.
Após a investigação, o delegado responsável pelo inquérito, Cleto Portela Pereira, indiciou o médico cirurgião Marcus Vinicius Meneses da Silva, o instrumentador cirúrgico Lucas Fillipi Alves de Souza e a médica auxiliar Barbara Furtado de Noronha.
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O g1 procurou o advogado Dalci Ferreira Santos, que representa os médicos Marcus e Bárbara, que afirmou que irá se manifestar por meio dos autos. A defesa de Lucas Fillipi, representada pelo advogado Geraldino Josias Jorge, foi localizada porém não retornou aos contatos.
A reportagem também entrou em contato com o Município de João Pinheiro, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, para se manifestar sobre o indiciamento dos profissionais da rede municipal, mas não houve retorno.
O inquérito foi protocolado na 2ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Penais da comarca de João Pinheiro e aguarda parecer do Ministério Público.
A família do Manuel, por meio do advogado Iuri Evangelista, se manifestou sobre a conclusão do inquérito. Ao g1, informou que agradece ao trabalho da Polícia Civil "que de forma imparcial realizou um trabalho sério e com profissionalismo na busca de esclarecer todos os fatos relativo ao caso", escreveu.
Investigação apontou 'imperícia' dos profissionais
Segundo a investigação da Polícia Civil, houve imperícia dos profissionais de saúde pela inobservância de protocolos considerados essenciais para a segurança cirúrgica, entre eles a revisão da cavidade abdominal antes do fechamento e a conferência do material utilizado durante o procedimento.
Consta no inquérito que Marcus Vinicius, que era o cirurgião principal, tinha a responsabilidade final pela verificação da integridade da cavidade abdominal. Já o instrumentador era responsável pelo controle dos instrumentos cirúrgicos utilizados durante a operação. E a médica auxiliar, por sua vez, compartilhava o dever de fiscalização e inspeção do campo operatório.e tela
“O instrumentador cirúrgico, a princípio, falou que não houve essa contagem em razão da multiplicidade, do número grande de instrumentos cirúrgicos. O médico alegou que confiou no instrumentador. Mas, enfim, a responsabilidade por verificar antes da finalização do procedimento cirúrgico, a contagem dos materiais e o local no qual foi realizada a cirurgia, é responsabilidade de todos eles”, considerou o delegado em entrevista à TV Integração.
🔎 O homicídio culposo por imperícia ocorre quando a morte é causada por uma conduta sem intenção de matar, mas com violação do dever de cuidado, o que leva ao resultado fatal. A definição segue o art. 121, § 3º, do Código Penal, conforme explicação do TJDFT.
Pinça foi encontrada seis dias após cirurgia
Manuel foi submetido a uma cirurgia de urgência no dia 5 de dezembro de 2025 para tratar uma úlcera gástrica perfurada. Durante a recuperação, apresentou piora clínica significativa.
Conforme trecho do inquérito, no dia 11 de dezembro, exames de imagem identificaram a presença da pinça cirúrgica metálica de aproximadamente 14 centímetros esquecida na cavidade abdominal desde o primeiro procedimento.
"O paciente apresentou piora clínica significativa, com rebaixamento do nível de consciência, sendo solicitada tomografia de crânio para investigação de possível AVC. Durante investigação diagnóstica complementar, foi realizada tomografia de abdome, que identificou a presença de corpo estranho metálico retido na cavidade abdominal desde a primeira cirurgia", diz trecho do documento.
Diante da descoberta, o inquérito policial aponta que o paciente precisou passar por uma segunda cirurgia de urgência para retirada do instrumento e controle de um foco infeccioso. Contudo, o quadro evoluiu para "choque séptico pós-operatório" e o paciente permaneceu internado em UTI até o óbito, registrado no dia 24 de dezembro.
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Laudo aponta que erro contribuiu para a morte
O laudo pericial usado pela Polícia Civil apontou que não é possível afirmar com certeza absoluta que Manuel sobreviveria à doença de base caso a pinça não tivesse sido esquecida. Mas o médico legista apontou que o erro atuou como uma “concausa superveniente agravante”, contribuindo para o desfecho fatal.
Segundo o documento, a presença do corpo estranho favoreceu a formação de um abscesso na cavidade abdominal e tornou necessária uma nova intervenção cirúrgica em um paciente que já se encontrava em estado grave.
O perito explicou que a segunda operação funcionou como uma espécie de "segundo golpe", provocando uma Síndrome de Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS) amplificada, levando à falência de múltiplos órgãos.
Ainda de acordo com o laudo, a necessidade da relaparotomia [nova abertura cirúrgica do abdome realizada no pós-operatório] aumentou o consumo das reservas fisiológicas do paciente, agravando o quadro clínico e reduzindo significativamente suas chances de recuperação.
Na conclusão, o perito afirma que o esquecimento da pinça configurou uma quebra de protocolos universais de cirurgia segura e que o segundo procedimento, realizado exclusivamente para retirar o instrument atuou como fator concorrente para a morte.
"O evento adverso reduziu, de forma drástica, qualquer chance (teoria da perda de uma chance) que o paciente possuía de se recuperar do insulto séptico primário", concluiu o legista Frederico Jardim Pfeilsticker no laudo pericial.
Paciente ficou 13 dias internado
De acordo com o Boletim de Ocorrência (BO), o paciente permaneceu dois dias na UTI e depois foi transferido para o quarto. Durante a internação, o filho Samuel Cardoso Rezende de Brito foi visitá-lo e percebeu que o pai estava com dificuldade de se alimentar.
A cuidadora também relatou que Manuel apresentou sinais de dor e sonolência excessiva. Foi então que Samuel pediu para ela questionar o quadro na próxima visita do médico ao paciente.
No dia 11 de dezembro, uma tomografia foi feita e segundo os familiares, profissionais chegaram apressados ao quarto e levaram o paciente para uma nova cirurgia. Não houve explicação sobre a motivação do procedimento ou solicitação de autorização formal da família.
"Eles voltaram e buscaram ele pra fazer a cirurgia, aí nessa cirurgia eles não comunicaram e nem deixaram a cuidadora que estava com ele acompanhar. Não chegou a pedir ela para ir, nem para comunicar a família", contou o serralheiro.
Depois da segunda cirurgia, Manuel voltou para a UTI. Ele ficou 13 dias internado, mas não resistiu e morreu. O filho serralheiro construiu a cruz do túmulo do pai.
Na certidão de óbito, a causa da morte foi registrada como natural, apontando choque séptico e úlcera gástrica perfurada. No entanto, a família e o advogado Iuri Evangelista Furtado contestaram a versão.
Samuel acredita que o pai poderia estar vivo se não fosse o suposto erro médico e a necessidade da segunda cirurgia.
"Eu fiquei sem chão. Se isso não tivesse acontecido com ele, eu garanto que meu pai tinha passado o Natal e mais um Ano Novo com a gente", lamentou.
Tomografia mostrou pinça cirúrgica dentro do corpo do paciente após cirurgia em João Pinheiro
Rádio Nova FM/Arquivo Pessoal/Reprodução
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Arquivo pessoal
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